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Mr. and Mrs. Picklesland ­- Querido me deixe brunir melhor essas platinas! Tudo é tão significativo para o momento não? Ah! Estamos vivendo dias terríveis... como pode tanta selvageria! Bons os tempos em que colhíamos dos nossos campos, tranquilos, sem esse abobamento selvagem dessa gente desclassificada. Acaso não está bom pra eles, querido, que lhes demos algum trabalho e possam comer? - Querida, eu sei, eu sei! Mas, por favor, entenda de vez; estamos numa guerra, o destino do mundo civilizado depende desta guerra! - E definitivamente já lustrou tanto esses paramentos meu amor! Que coisa!? - Lembre-se meu querido, é como àquela linda estola que ganhou naquela cerimônia cívica; até ela ficaria muito bem atravessando essas estrelas aí. - Você sempre me convence meu amor como é importante conservar o estilo, mesmo nas horas mais terríveis e difíceis, como as que temos passado. [Breve pausa, e o vento languidamente lambe a cortina quase transparente... Só ao fundo, naquele ...
  Oco Não sei onde andam os sentimentos Que qualquer poema desperta.   Nem mesmo aonde deixei os manuscritos Com àqueles experimentos; lexemas, palavras, parvoíces...   Sou agora meio uma gramema Não é uma doença, eu imagino.   Mas um tipo de gangrena Que o muco e as cores muda Assim com a noite ou o dia.   Mesmo porque também largo do pesar De morrer pra assim escrever.   Não sei, ora bolas, então onde andam Esses tais amores, paixões, desejos, luxúrias...   Nem sequer mais sei se eles antecedem, precedem À poesia. Ou rebentam juntos; sei lá, depois.   Concomitantemente; incoexistentemente...   Sei que a cada instante de vida Que me sorve, certo reviramento constante Inconstante remuda.    
Sois   Um sol No horizonte indolente Escorçado retrato Em encarnado carmim.   Oh delusório cenário! Olhos teus ajabuticabados Plangente mistério Negros sóis encantados Embevecidos assim.   Quando a vi Sob um sol caminhavas Em teus passos guardavas Sobre um chão de desejos Impérvios segredos de ti.   Entrevi que te amava E que então tu estavas   Como o sol que inflama   Imorredoura fagulha Eviternamente queimando Dentro de mim.    
Esboço para um sonho   Tenho em mente uma viagem Um passeio acalentador pelas praias de areia fina com águas tão azuis quanto seus profundos olhos. Planejo há tempos essa mais importante das minhas viagens, confesso que não estou preocupado com as malas, arranjos de última hora, precisão nos horários de partida e chegada, tudo isso é tão maçante, embora necessário. Estou preocupado, diria atacado pelas sensações prévias de coisas maravilhosas que me virão. Sinto já as tardes e aquele frescor do vento que lambe meus pés, joelhos, todo meu corpo. Deitado languidamente na areia morna. E aquele azul tocando o ocre crepuscular, me deixa tão complacente, que de cara perdoo todas as tuas ausências, todas as tuas partidas e todas as vezes que quebrou meu coração, deixando-o como um vaso estilhaçado no chão. E é de recriá-lo a partir de cacos, como um Frankenstein onírico que toma como sua máxima arte os próprios remendos, os estilhaços, as partes que se juntam no todo que ...
 A palavra é uma instigação como um voo de pássaro, assim ela é cheia de entusiasmo. Porém, a  transcendência da palavra, mais do que a pintura que se traceja no ar, é a perdida essência do voo. Sendo  sentimento e palavra uma só coisa, todos são tomados por ela e inevitavelmente imersos na tragicômica  obra que lentamente se compõe em si mesmos.
  ONDE Tudo está na música que eu ouvia Ouço E ainda mais na que jamais ouvi.   Ou sequer ouvirei.   Na sinfonia alucinante Onde parece haver só o silêncio.   Pois ali estava o meu ser em suspensão Ali estará sempre o susto e o fulgor excelso.   Sobressalto da minha aparição.   Nesses alis estão os sulcos, as fendas e alcantis Os sentimentos mais estremes.   Agora sei que jamais fora na quimera Tão reluzente das coisas que Me identificava.   Havia o receio desta minha verdade Para mim esplendor estava onde não estava.   Atrás do sol reluzente deveria Haver algo que o sustentava.   Da lua e da luz cintilante Um rumor pelo qual brilhava.   Mas não é um deus ou criadoras Divindades Senão uma transcendência que por certo Nunca se apresentava.   Por isso que de ti me escapa por vezes A figura que o tempo leva.   Parece que teu rosto se evenasce E te...
  Intransitivo Que linda esta manhã   Onde borboletas bailam em frestas de luzes Ou uma chuva cai sobre pedras e cruzes.   (Não seja cruel, pensa uma flor, Por inteira me possua,   Porque minha existência é toda tua E tão grande é minha paixão!)   Mas é tolo quem a esta tão perdidamente se entrega?   Pois não sabemos se é o amor Uma ilusão contida num sonho   Ou se a própria natureza surge Do estado de toda coisa bela?   Mas temos a ânsia de querer O enlace da permanência,   Se não mais nos basta   Todo mel de nosso abraço Na angústia de longa espera.   Mas que é ela a eternidade   Senão o fulgor dos instantes Que para trás leva todo o anseio   E a própria lembrança é devaneio   Onde a vida chama realidade.